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Flip: autor de ‘Trainspotting’ quer ‘virar’ série

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PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

 

Autor lança romance no festival literário e negocia adaptação de outros livros para TV e sala escura

Rafael Aloi, na Veja

Irvine Welsh é um dos principais nomes da Flip 2016, que tem início nesta quarta-feira e segue até domingo, em Paraty, com homenagem à poeta brasileira Ana Cristina César. O escritor escocês participa de uma mesa nesta quinta sobre a dependência química na literatura nos Estados Unidos e no Reino Unido, tema que debate com o americano Bill Clegg, de Retrato de Viciado quando Jovem (Companhia das Letras).

Antes de sua chegada ao Brasil, Welsh conversou com o site de VEJA para falar um pouco sobre o livro que lança no país durante o festival literário, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas (tradução de Paulo Reis, Rocco, 416 páginas, 48 reais), que se passa em Miami, um local distante do seu cenário preferido, a terra natal, Escócia. “Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pelo próprio corpo, e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso.”

O escocês também falou sobre o seu livro mais famoso, Trainspotting, lançado em 1996, que foi adaptado para os cinemas e rendeu dois livros derivados. “É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, e eles são muitos especiais para mim”, confessou o ator.

Welsh também mostrou que conhece um pouco da literatura tupiniquim. Apesar de não se lembrar do nome do livro que leu – pela descrição da trama, pode ser Dias Perfeitos, de Raphael Montes –, ele disse ter gostado e sugeriu que mais histórias fossem vertidas para o inglês. “O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso”, analisou.

Confira a entrevista completa com Irvine Welsh:

Você escreveu Trainspotting em 1996. Lançou a sequência Pornô em 2002, e a prequel Skagboys em 2012. No ano passado, resgatou um dos personagens no livro The Blade Artist (O Artista Afiado, em tradução direta). O que o encantou tanto naquela história criada na década de 1990 que o fez revisitá-la tantas vezes? Eu amo esses personagens. É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, eles são muitos especiais para mim.

E o que fez os leitores gostarem tanto da história? Acredito que é porque mostra uma sociedade em transição. Uma transição para um mundo que nós não queríamos. A tecnologia mudou tudo o que fazíamos, e o capitalismo destruiu o que sobrou.

A-vida-sexual-das-gemeas-siamesas-431x620No Brasil, você está lançando A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. O romance se passa em Miami, um local bem diferente da Escócia e do Reino Unido, onde suas outras histórias eram ambientadas. Por que você decidiu fazer essa mudança? Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pela imagem do próprio corpo, e Miami e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso, o que a Escócia não tem. Então, eu tive que escolher Miami, porque era o melhor lugar para essa história.

Você agora está morando nos Estados Unidos, como vê a diferença entre a cultura americana e britânica? Estou aqui na Escócia há um mês, e o que percebi é que aqui as pessoas bebem mais (risos), festejam mais. Eu adoro quando vou aos Estados Unidos e depois retorno ao meu país, porque aqui as pessoas berram uma com as outras, se abraçam, brigam, sempre com uma bebida na mão. São mais calorosas.

E você prefere falar sobre a cultura do seu país natal ou da América, onde mora agora? O mundo é muito grande, então eu busco não me limitar a um único tipo de cultura. Mas sou apegado ao local de onde venho, e é um lugar em que sempre posso me aprofundar sobre quando escrevo. Gosto daqui, pois há coisas únicas. Mas há sempre muita coisa acontecendo no mundo sobre as quais posso escrever.

Como já falamos, o seu novo livro se passa em Miami, um lugar que tem muita cultura latina. Você estudou essa cultura, ou já conhecia alguma sobre ela? Vocês aí na América Latina são gente fina, escutam músicas muito boas, usam roupas legais, gostam muito de festejar, beber, têm comidas ótimas, não tem o que não gostar daí. Talvez um dia eu escreva um livro que se passe nessa região, mas vocês já têm muitos escritores bons por aí. E com certeza eles fariam um trabalho melhor do que o que eu.

Você conhece algum autor brasileiro? Há um tempo, conheci um rapaz que me deu um livro, um livro bem estranho, sobre um cara que sequestra a namorada e a prende em uma mala, e a obriga a fazer uma viagem com ele. Eu não lembro agora nem o nome do livro nem do autor, mas era bem interessante. O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas, o que se torna um obstáculo. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso.

E quais autores inspiraram você? Eu não tenho um nome específico. Na verdade, eu gosto dos que são ruins, aqueles que eu realmente não gosto do que li, porque eles me encorajam a pensar ‘Eeu preciso fazer algo melhor do que isso’. Enquanto os autores muito bons, às vezes desencorajam a gente, pois não sei se conseguiria fazer algo tão bom quanto eles (risos).

Você fica incomodado quando as pessoas o chamam de “o autor de Trainspotting? (Risos) Não. Eu vejo isso de uma forma positiva. Eu me sinto lisonjeado que meu livro ainda seja tão lembrado.

Você está envolvido de alguma maneira com a sequência produzida por Danny Boyle? Ah, claro. Eu sou o produtor executivo do filme. Outro dia mesmo estive nos sets de filmagem conversando com os atores.

O roteiro do filme é realmente baseado em Pornô? Um pouco. Mas é mais evoluído, pois Pornô já está um pouco velho, tem quase 15 anos. Tivemos que atualizá-lo e torná-lo mais contemporâneo. O filme trará os principais elementos do livro, mas também tem muita coisa nova e mudanças grandes. O que eu acho que ficou mais interessante, pois eu não quero ver exatamente a mesma história que criei, prefiro ver algo novo.

Que outros livros seus você gostaria de ver no cinema? Eu gosto de Filth, que já ganhou um filme em 2013, e acho que fizeram um bom trabalho nele. Eu já fui procurado sobre uma adaptação de A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, mas ainda estou avaliando. Há ideias para transformar Skagboys e Crime em séries de TV, também.

Nem investiu em política de bem estar social na Rocinha, diz autor de biografia

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O escritor inglês Misha Glenny - Barbara Lopes / O Globo

O escritor inglês Misha Glenny – Barbara Lopes / O Globo

 

Inglês Misha Glenny está lançando ‘O Dono do Morro’ na Flip

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — O inglês Misha Glenny não se intimidou, na manhã desta quinta-feira, com a quantidade de jornalistas brasileiros presentes para fazer perguntas sobre o livro “O Dono do Morro”, que narra a história de Antonio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o chefe do tráfico da Rocinha preso em 2011. Falando quase o tempo todo em português, Glenny garantiu que o desafio era pequeno para alguém que morou por três meses na Rocinha, em 2014, a fim de entender o personagem principal de sua obra.

Lançado nesta Flip, o livro conta a história de Nem, chefe do tráfico na favela entre 2005 e 2011 e responsável, segundo o escritor, por investir num sistema de bem estar social na comunidade, permitindo a segurança do seu negócio e o aumento do lucro com o comércio de cocaína. O inglês de 58 anos, correspondente do “Guardian” e da BBC, se especializou em investigações criminais. Depois de presenciar in loco a detenção de Nem, decidiu que escreveria sobre a sua vida.

— Eu estava no Rio em novembro de 2011, quando ele foi preso. Foi um acontecimento público, fiquei impressionado com a cobertura intensa. Na ocasião, metade do Rio o demonizava e a outra o tratava como herói. Me impus duas condições: aprender português e morar por pelo menos dois meses na Rocinha — explica Glenny.

Muito além de uma biografia, o livro contextualiza os problemas sociais das favelas brasileiras, e o impacto do tráfico de cocaína na sociedade.

— Não é somente sobre o Nem, mas sobre a Rocinha, a guerra às drogas e a desigualdade social no brasil. A estatística mais importante do livro, na minha opinião, é que em 1982 o Rio teve a mesma taxa de homicídios que Nova Iorque; em 1989, os números de Nova Iorque se mantiveram e os do Rio já eram três vezes maiores. Isso ocorreu porque o Brasil se tornou a principal rota do pó para a Europa, o que desenvolveu hábito local também.

Crítico da política de guerra às drogas, Glenny, por outro lado, constatou o impacto do comércio de cocaína na Rocinha, durante o período em que Nem controlava o morro. Impressionado com a força da atividade econômica no local, o escritor acredita que o bem-estar vivido pelos moradores naquela época foi resultado da visão de mercado do traficante.

— É uma relação complexa, mas o tráfico teve um impacto positivo na favela. Em 2005, quando o Nem assumiu, a taxa de violência na Rocinha caiu. Foi a primeira favela a receber bancos, e até a primeira a receber uma sex shop. Acho que isso tudo tem a ver com a política do Nem. Ele percebeu que se a violência caísse, o lucro subiria. Apesar de negar que fez conscientemente, o fato é que grande parte dos lucros foram direcionados para um sistema de bem estar social. Naquele período era uma favela muito segura, muitos políticos e jogadores de futebol frequentavam o local. E muitos cantores, como Ja Rule, Ivete Sangalo e Claudia Leite, também fizeram show nos espaços de lá.

Depois da prisão de Nem, a Rocinha sofreu um choque de realidade com a entrada da UPP, que Glenny classifica como um trabalho corajoso e bem feito. O grande problema, para o escritor, foi o “fracasso absoluto da UPP social”.

— Entrevistei o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ele me disse que o que mais chocou ele, ao entrar no governo, foi a percepção de que o estado estava ausente das favelas por 50 anos. A UPP foi uma ação corajosa, proporcionada pela união das esferas municipal, estadual e federal. As taxas de homicídio caíram, mas as de outros crimes como furto e estupro subiram. O caso Amarildo expôs como o projeto, sem a UPP social, era frágil. Agora, com o impacto da crise, acho que a situação da violência irá piorar muito depois das Olimpíadas.

Glenny descreve Nem como um homem que só entrou para o tráfico aos 24 anos, idade considerada tardia, e uniu sua inteligência com a experiência de gerência de equipes, adquirida quando comandava a entrega de revistas na Zona Sul. Para ele, a história do traficante ainda não foi compreendida por policiais, advogados e mídia. Crescido sob a marca da violência doméstica, Bem mudou de vida quando sua filha de apenas sete meses desenvolveu uma doença rara. O escritor lembra pesquisas que mostram como a violência doméstica, endêmica nas favelas brasileiras, causa consequências na vida adulta da vítima.

Minha primeira pergunta ao Nem (em entrevista feita na penitenciária de Mato Grosso do Sul) foi sobre sua família. Ninguém nunca o havia perguntado sobre isso. Pesquisando, descobri que sua filha ficou doente ainda bebê. Foi quando ele entrou para o tráfico. Seus pais eram alcóolatras, e ele sofreu muito com isso, mas mesmo assim era bastante apegado ao pai, de quem teve que tomar conta após ser baleado numa tentativa de assalto. Na ausência da mãe, que precisava trabalhar o dia inteiro, Nem acompanhou de perto o fim da vida do pai. Depois disso, ele prometeu que seria um bom pai e teve sete filhos.

Os donos do morro não são necessariamente visto como heróis em suas favelas, diz Glenny. Ele citou, por exemplo, o caso da Maré, onde “há medo real dos moradores”. Em sua pesquisa, o autor constatou que os chefes do tráfico exercem sua influência política através de três instrumentos: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção policial.

— Nem, que era chamado de mestre ou presidente pelos moradores, diria que o mais importante era o apoio da comunidade. Investigadores dirão que é a corrupção policial, prática mais usada por ele, que preferia corromper a usar da violência — disse Glenny, para quem a legalização da maconha seria um avanço, mas insuficiente para melhorar os índices criminais — Alguns traficantes brincam dizendo que a maconha é um problema, porque é mais pesado, fede e não dá tanto dinheiro. A cocaína é muito mais rentável.

Alvin Toffler, autor futurista, morre aos 87 anos nos Estados Unidos

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Escritor e visionário ficou conhecido por ‘Choque do futuro’ e ‘A terceira onda’.
Em parceria com esposa, previu desenvolvimento econômico e tecnológico.

Publicado no G1

Alvin Toffler morreu aos 87 anos (Foto: Divulgação/Toffler Associates)

Alvin Toffler morreu aos 87 anos
(Foto: Divulgação/Toffler Associates)

Alvin Toffler, autor e visionário americano conhecido por seus inúmeros best-sellers, incluindo “Choque do Futuro” e “A Terceira Onda”, morreu em sua casa em Los Angeles, aos 87 anos.

Ele morreu na segunda-feira (27), informou, em nota, a Toffler Associates, empresa de consultoria fundada pelo próprio. A causa da morte não foi informada.

O inovador livro de Toffler “Choque do Futuro”, no qual ele examina a mudança social, e inúmeros outros escritos como coautor com sua mulher, Heidi, fizeram dele um dos mais respeitados futuristas da era moderna, com líderes mundiais e magnatas buscando seus conselhos.

Toffler previu com exatidão o desenvolvimento econômico e tecnológico – incluindo clonagem, notebooks e Internet – assim como os efeitos sociais decorrentes disso. Entre eles, a alienação social, o declínio do núcleo familiar e a ascensão do crime e do uso de drogas. Ele fez o termo “sobrecarga informacional” se tornar popular.

“Muitas dessas previsões vêm para provar que a tese central de seu trabalho se mostrou verdadeira – como o conhecimento – baseado na nova economia que substitui a Idade Industrial”, disse sua firma de consultoria.

Diversos homens de Estado, entre eles o líder soviético Mikhail Gorbachev em 1986 e o então premiê chinês Zhao Ziyang, foram inspirados pelos escritos e ideias futuristas de Toffler, procurando seus conselhos.

O bilionário mexicano Carlos Slim também creditou a Toffler, um amigo próximo, o auxílio na antecipação e identificação das oportunidades de negócios.

“Choque do Futuro” foi publicado em mais de 50 países, e mais de 15 milhões de cópias do livro foram vendidas, de acordo com o site do autor.

“É difícil encontrar um aspecto da vida moderna que não tenha sido tocado por ele”, disse Deborah Wastphal, CEO da empresa Toffler Associates.

“Nós sempre estivemos conscientes de sua influência enquanto vivemos em um mundo marcado pelo aumento da inteligência artificial, pelas sociedades conectadas globalmente e por um ritmo acelerado de mudança”, completou.

Toffler conviveu com sua esposa e parceira de negócios, Heidi Toffler, por mais de 60 anos.

Ele será enterrado em uma cerimônia particular em Los Angeles, de acordo com sua consultoria. Um memorial público está sendo programado e pode ser anunciado posteriormente.

‘É absurdo que Machado não seja obrigatório’, diz escritor português

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Crítico literário, Pedro Mexia lança obra poética no Brasil - Divulgação

Crítico literário, Pedro Mexia lança obra poética no Brasil – Divulgação

Mariana Filgueiras, em O Globo

RIO — Crítico, apresentador de TV, dramaturgo, tradutor, o português Pedro Mexia é também poeta e fã da literatura brasileira. Jurado do Prêmio Camões, considerado o mais importante prêmio literário em língua portuguesa (e que há poucas semanas elegeu o escritor paulista Raduan Nassar como ganhador de 2016), Mexia tem um livro publicado no Brasil: a coletânea de crônicas “Queria mais é que chovesse”, pela Tinta da China.

É pela mesma editora que ele lança, nesta quarta-feira, “Contratempo”, uma coleção de cem poemas escolhidos para o público brasileiro. No país para o evento — e também para o lançamento de “Breviário do Brasil”, clássico da portuguesa Agustina Bessa-Luís que só agora chegou ao país e cujo prefácio ele assina —, Mexia conversou com O GLOBO, por e-mail, sobre a relação literária ainda tensa entre Brasil e Portugal: “Agustina é a maior escritora portuguesa que os brasileiros desconhecem”.

Pelo segundo ano consecutivo, o senhor é jurado do Prêmio Camões. Sabemos que os prêmios têm imenso peso literário, mas pouco peso comercial. Ganhadora de 2015, Helia Correia continua ausente no Brasil. Raduan Nassar, brasileiro ganhador deste ano, também é desconhecido em Portugal. Como diminuir essa distância entre as láureas e o público?

Independentemente do prestígio que o Prêmio Camões tenha ou não nos dois países e da atenção variável que os premiados recebem da mídia (dependendo da sua notoriedade, acessibilidade etc.), é notória a convivência difícil entre as duas literaturas. Parte da solução está nos currículos escolares (é absurdo que Machado não seja obrigatório nas escolas portuguesas) e na disponibilidade, a preços aceitáveis, de livros brasileiros em Portugal e de livros portugueses no Brasil. A outra parte depende um pouco de os escritores se lerem uns aos outros, se conhecerem, escreverem uns sobre os outros, como aconteceu aliás noutras décadas, quando todos os escritores portugueses sabiam bem quem eram Jorge Amado, Cecília, Bandeira ou Drummond.

Você assina o prefácio de “Breviário do Brasil”, de Agustina Bessa-Luís, um desses clássicos da língua portuguesa que nunca tinham sido editados aqui, até esta semana, quando foi lançado no país pela Tinta da China. E diz: “Amamos o Brasil porque achamos que o compreendemos”. Por que o “Breviário do Brasil” é um bom livro para os brasileiros começarem a ler Agustina?

Achamos, nas últimas décadas, que conhecíamos o Brasil, quando na verdade conhecemos apenas um Brasil de superfície, mesmo que as superfícies nem sempre sejam ilusórias: o Brasil da praia e das canções, das novelas e do futebol. Idolatramos isso, ou detestamos isso, mas não é com isso que ficamos a conhecer o Brasil tal como ele é. O Brasil é um país que tende a ser definido através de clichês. Até os amigos do Brasil cometem esse erro. O “Breviário do Brasil”, de Agustina, foge às ideias feitas e aos lugares-comuns, tratando o Brasil com seriedade, exigência e carinho, como se de fato fosse um país irmão, um gêmeo diferente. E a obra de Agustina Bessa-Luís é toda assim: idiossincrática, impertinente, implacável, brilhante. É a maior escritora portuguesa que os brasileiros desconhecem.

O que o norteou ao escolher quais poesias suas apresentaria ao público brasileiro no livro “Contratempo”?

Adaptei para a edição brasileira a antologia que publiquei há uns anos em Portugal, incluindo poemas de uma coletânea mais recente, e eliminando outros, de modo a manter um número redondo de cem poemas. São os poemas que me parecem mais conseguidos ou mais “representativos”, e que identificam uma mundividência e uma linguagem. Na seleção, evitei apenas alguns textos que têm referências “demasiado” portuguesas, e que só seriam entendidos com (indesejáveis) notas de pé de página.

As cotas para negros: por que aposto os meus olhos azuis

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Texto de William Douglas

William Douglas Juiz federal (RJ) Mestre em Direito pela Universidade Gama Filho Especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ) Professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis

William Douglas
Juiz federal (RJ)
Mestre em Direito pela
Universidade Gama Filho
Especialista em Políticas Públicas e
Governo (EPPG/UFRJ)
Professor e escritor, caucasiano
e de olhos azuis

Roberto Lyra, promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, recomendava aos colegas de Ministério Público que, “antes de se pedir a prisão de alguém, deveria se passar um dia na cadeia”. Algumas coisas, apenas o contato imediato com a realidade permite compreender.

Já fui contrário às cotas para negros, defendendo que seria mais razoável e menos complicado utilizar apenas as cotas sociais. Hoje não penso mais assim. E, embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição é pródiga em fundamentos para, de fato, tornarmos este país melhor e mais decente.

Há ótimos argumentos técnicos favoráveis e contrários às cotas e o valor pessoal e a competência dos contendores comprovam que há gente de bem, capaz, bem-intencionada, honesta e com bons fundamentos nos dois lados dessa questão. Não os usarei aqui, portanto.

Vou deixar minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor e especialista em concursos: não vamos perder nosso momento histórico, nossa oportunidade de descontar parte do atraso de nossa sociedade; vamos criar mais igualdade nas oportunidades de estudo. Rui Barbosa já dizia sabiamente que tratar igualmente os desiguais não é correto.

Trago aqui o argumento que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular e Enem para a Educafro, pré-vestibular para negros e carentes.

Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei o convite para dar aulas como voluntário nessa ONG por entender que isso seria uma contribuição para a formação desses jovens.

Nessa convivência, fui descobrindo que ter acesso a estudo sendo pobre é um problema (que já vivi), mas ser pobre e negro gera um problema bem maior ainda. Claro que alguns negros pobres conseguem, mas isto apenas mostra seu heroísmo, e não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro deste país.

Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos em um colégio onde não há um aluno negro sequer, no qual há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola este ano, uma escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado.

Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de balé. Teve problemas de matemática e providenciei, por ter dinheiro, aulas particulares. A filha de minha empregada não teve dificuldades com matemática porque a sua escola pública está sem professor de matemática. Minha filha tem playground; a outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas.

A filha da empregada, que ajudo o quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas princesas negras com vestidos, armários e escolas compatíveis, neste país imenso.

A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E, se não cresse em Deus como creio, saberia que, com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não estaria bem resolvido.

O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas a teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras.

Não que tenha nada contra o bem-estar da minha menina: damos muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que, lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. É justo que a outra tenha alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem haveria honestidade ao se tratar as duas da mesma forma só ao completarem o ensino médio.

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É não fazer nada. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais justos. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: as universidades não podem ficar omissas.

Foi vendo meninos e meninas, negros e pobres, tentando uma chance, tentando manter brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos, foi passar “dias na cadeia”. Na cadeia deles, dos pobres, o lugar de onde vieram meus pais, e do qual experimentei somente um pouco, quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Se você discorda das cotas, me perdoe, mas recomendo um dia “na cadeia”. Venha nos visitar na Educafro, venha ver algo que precisa encontrar eco em nossas políticas públicas.

Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito, também fui contra por muito tempo. Mas essa semana, na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que frequenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida).

Será que essa desigualdade não persiste por nossa inércia? Você tem argumentos bons, concordo, o outro lado também. O que vai mudar sua opinião é essa realidade nua e crua de falta de oportunidades.

Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles mais oportunidades. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a uma nova realidade.

Queremos você conosco nessa história. Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte, ou a dela. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Alguns dias “na cadeia” me fazem apostar meus olhos azuis nas cotas. Precisamos delas, agora.

Então, como disse Roberto Lyra, “o sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor-próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor”. Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Fique a favor ou, pelo menos, “visite a cadeia”.

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